#03. VACINA CONTRA COVID-19: 2021 - uma odisseia no espaço vacinal



Início


Em 5 de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde publicou o primeiro informe sobre um surto ocasionado por Pneumonia de causa desconhecida na China. Notificado em 31 de dezembro de 2019 (Figura 1).


Foi a partir desta publicação que o mundo ficou sabendo que algo "diferente" estava ocorrendo na China. Naquela ocasião, a Pandemia atual se resumia a 44 pacientes e sem registros de óbitos.


Figura 1. Primeira publicação da OMS referente à COVID-19

No entanto, foi a partir de 6 de março que a OMS inicia a saga para estimular o desenvolvimento e fabricação de um volume sem precedentes de imunológicos. Para isso, foi publicado o primeiro roteiro para orientar a pesquisa de modo coordenado (Figura 2)


Figura 2. Roteiro para coordenação da pesquisa global

Este roteiro tinha os seguintes objetivos:

  1. Fomentar as estratégias para que as pessoas afetadas sejam prontamente diagnosticadas e recebam os melhores cuidados; enquanto integra a inovação totalmente dentro de cada área de pesquisa;

  2. Apoiar as prioridades de pesquisa de modo que propicie o desenvolvimento de plataformas globais de pesquisa previamente adaptadas à próxima epidemia da doença X que significa uma epidemia inesperada ocasionada por um patógeno conhecido ou previamente desconhecido;

  3. Permitir soluções inovadoras de pesquisa acelerada e desenvolvimento de diagnósticos, terapêuticas e vacinas, bem como seu acesso equitativo em tempo hábil.

Naquela ocasião o "estado da arte" referente ao desenvolvimento de vacinas contra COVID-19 indicava que algumas vacinas já estavam em desenvolvimento pré-clínico, como parte da resposta à Pandemia de SARS-CoV1, entre 2002/2003.


A OMS começou a mapear a disponibilidade de vírus e reagentes para facilitar o compartilhamento de amostras e as sequências, visando acelerar o desenvolvimento de padrões internacionais e painéis de referência para ajudar e apoiar os estudos. Foi a partir desse período que um protocolo de desenvolvimento para as Fases 2b e Fase 3 foi iniciado.


Como pontos críticos e lacunas do conhecimento, tínhamos:

  1. Modelos animais adequados para priorizar o desenvolvimento e avaliação do potencial das vacinas candidatas, ainda não estavam disponíveis;

  2. Não havia e ainda temos muitas dúvidas se, na possibilidade, de aumento na transmissão, esse fato poderá limitar as escolhas dos tipos de vacina, bem como aumentar a complexidade dos ensaios clínicos;

  3. Os ensaios relevantes para avaliar a resposta imune a novas vacinas ainda não foram desenvolvidos e padronizados.

  4. Embora haja um bom entendimento do que precisará ser feito nos estudos clínicos de fase inicial, decisões importantes precisam ser tomadas sobre o desenho dos estudos clínicos de fase posterior.

  5. Outras lacunas consideradas: avaliação e desenvolvimento de processos para vacinas individuais, otimização de cultura de células, reatividade cruzada com outros coronavírus, questões relacionadas à vacinação de mulheres grávidas etc.

Este foi o início desta odisseia coletiva e internacional que estamos vivendo. Se alguém duvidar de Einstein, terei que concordar. Também acho que "Deus joga dados".

Odisseia: longa perambulação ou viagem marcada por aventuras, eventos imprevistos e singulares.

Objetivos


compartilhar algumas informações breves sobre vacinas, doses aplicadas, número de países que já vacinaram etc.


OMS: Situação atual do desenvolvimento de vacinas até 5 de janeiro de 2021


Atualmente temos 63 vacinas em fase clínica e 172 em fase pré-clínica, perfazendo um total de 235 vacinas, distribuídas em 10 tecnologias diferentes, sendo:


Tabela 1. Tipos de tecnologias utilizadas nas vacinas e número de vacinas em fase clínica de desenvolvimento. OMS, 5 de janeiro de 2021

Essa vacinas podem ser agrupadas em 4 grandes grupos de tecnologias, sendo:

  1. Vacina de vírus: os vírus são manipulados para perderem a capacidade de infecção. No entanto, o corpo o reconhece e desenvolve imunidade específica.

  2. Vacinas de vetores virais: vírus como sarampo ou adenovírus são manipulados geneticamente para estimular produzir proteínas do coronavírus. Esses vírus não podem causar doenças. Existem dois tipos diferentes de vetores virais (1) aqueles que ainda podem se replicar dentro das células e (2) aqueles que não podem porque os genes principais foram desativados.

  3. Vacina de Ácido Nucleico: nesta tecnologia o fragmento do DNA ou RNA é inserido nas células humanas que vão produzir cópias de alguma proteína do vírus. Na maioria das vezes é a proteína Spike (espícula que permite a entrada do vírus na célula humana). Estas são as vacinas, em teoria, mas fáceis de desenvolvimento. No entanto, são também as mais instáveis e requerem condições mais especiais de manutenção da qualidade.

  4. Vacina à base de proteína: proteínas do coronavírus são injetadas diretamente no corpo humano. Eventualmente fragmentos ou invólucros de proteínas que imitam a estrutura do vírus também podem ser usados.

A primeira vacina aplicada fora dos estudos


O Rússia e Reino Unido foram os primeiros países do mundo a iniciar a vacinação como estratégia de campanha, fora dos estudos clínicos. Fora a experiência Russa que iniciou com várias interrogações, o Reino Unido deu inicio por meio da Irlanda do Norte em 8 de dezembro de 2020 (Figura 3).


Figura 3. Anuncio oficial do Governo da Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales sobre o início da vacinação


Balanço do período de 13/12/2020 até 05/01/2021


Figura 4. Mapa com a distribuição de países segundo o percentual de doses aplicadas em relação à população

Até 5 de janeiro, um total de 44 países no mundo já realizaram alguma dose de vacina em sua população. De acordo com o número de países que já iniciaram, temos:

Europa: 32 países Oriente Médio: 5 países América do Norte: 3 países (todos) América Central: 1 país (Costa Rica) América do Sul: 2 países (Argentina e Chile) Ásia: 1 país (China)

Na tabela abaixo você pode conferir por continente e país, segundo o número total de doses aplicadas por dia no período até 5 de janeiro.


Tabela 1. Número de doses aplicadas por dia e país. Até 5 de janeiro de 2021


Figura 5. Europa - Diagrama de Pareto do maior para o menor percentual


Figura 6. Américas - Diagrama de Pareto do maior para o menor percentual



Figura 7. Oriente Médio - Diagrama de Pareto do maior para o menor percentual


Figura 8. Diagrama de Pareto com países que apresentaram percentual superior a 1% de sua população até 5 de janeiro


Reflexões e comentários:


Acho que esses dados podem subsidiar algumas reflexões. Ao todo são 44 países, na maior parte desenvolvidos e que foram afetados mais precocemente que nós. Ao longo de 23 dias corridos, sabendo que muitos não estão vacinando tão regularmente quanto imaginamos. O total desses países realizaram nesse período um volume de 174.186.051 doses, equivalente a 0,19% do total de pessoas no mundo. Portanto...


Segundo o Plano do Ministério da Saúde, as estimativas inicias são para vacinar 15 milhões de pessoas com a primeira dose no intervalo de 30 dias e dependendo da vacina, essas mesmas pessoas terão que retornar dentro de 14 dias no caso da vacina do Butantã ou 28 dias na vacina da Fiocruz.


Não está claro se as unidades de saúde vão funcionar nos sábados e domingos. Creio que seria importante, pelo menos na primeira etapa. Mas para isso ocorrer, será preciso repassar recursos aos Estados e Municípios, pois o custo de recursos humanos é elevado e, creio, os mesmos não estejam prevendo isso. No entanto, não estou certo. Vale conferir!


Considerando a falta de insumos informada pela imprensa, creio ser importante considerar realizar a segunda dose com um intervalo maior, como feito no Reino Unido, para garantir a operação do sistema e aumentar o número de pessoas com um "mínimo" de imunidade. Lembrando que a eficácia é um dado em situação controlada. Ainda é preciso considerar o impacto (efetividade) real que será influenciado por falhas humanas, alteração de temperatura, doses erradas etc.


Possivelmente os frascos serão multidose e isso implica em um tempo maior para retirar o insumo do frasco, conferir os dados do produto e da pessoa a ser vacinada, registrar no sistema de informação, garantir que a pessoa esteja devidamente informada da segunda dose, garantir que haverá insumo para a segunda dose, garantir que a pessoa receberá a segunda dose com a mesma tecnologia da primeira e, preferencialmente, do mesmo fabricante. Ou seja, são muitos fatores, mas no momento destaco a importância do Sistema de Informação. Espero que esteja bem adiantado e em fase de homologação.


O ideal seria garantir o cadastros de todos as pessoas que estão no público prioritário usando do e-SUS Notifica, estabelecer parceria com as companhias telefônicas para enviar SMS às pessoas já cadastradas no Cadastro Único da Saúde, fazer malas diretas com os Conselhos Profissionais para atingir os profissionais previamente. Na prática essas ações já deveriam estar sendo disparadas na próxima semana, para começar a vacinar em fevereiro.


O uso do e-SUS Notifica que foi criado para registro da pandemia e deste modo seria possível, inclusive, checar se o cidadão já teve Covid-19 anteriormente. Nesta situação, quanto mais informações integradas, melhor!


Mesmo conhecendo a capacidade do SUS absorver, não estamos lidando com vacinas já conhecidas e completamente dominadas. Portanto, sugiro muito "caldo de galinha e prudência".


De todo modo, devemos dar Graças à Deus, pois estamos discutindo como fazer a vacinação. Há poucas semanas, sequer sabíamos se realmente estaríamos iniciando neste momento. Eu ainda mantenho minha posição de que uma campanha realmente massiva será por meados do meio do ano. Desejo estar equivocado e ficarei muito feliz de ser corrigido. Fizemos as vacinas mais rápidas da história da humanidade. Antes da COVID-19, a vacina que teve desenvolvimento mais rápido, demorou 4 anos. Acho que com isso, realmente entramos no Século XXI uma odisseia no espaço.


Antes da COVID-19

Após a COVID-19


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Anexo:

Download da tabela com os totais por continente, país, dia e mês da vacinação, entre 13 de dezembro e 5 de janeiro.

VACINA-COVID19_ Balanço até 5 de janeiro
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Fonte: https://ourworldindata.org/




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