30jul21 | Análise da situação do Brasil e do mundo sobre a COVID-19 e síntese da vacinação


por @wandersonepidemiologista


SÍNTESE DE CASOS ÓBITOS E VACINAS NO BRASIL


Hoje completamos 1 ano e 6 meses desde que a OMS declarou a Emergência em 2020. Em 2021 o Brasil vem enfrentando os piores momentos com mais óbitos e casos que em anos anteriores em decorrência da circulação de variantes mais agressivas e também pelas falhas de gestão e coordenação da resposta, com demora na aquisição de vacinas, falhas logísticas nas entregas, denúncias de corrupção e também pela incompetência do Ministério da Saúde em realizar a comunicação de risco. Neste cenário caótico, fiz agora a pouco a síntese de casos, óbitos e coberturas vacinais no Brasil a partir de janeiro de 2021.


A população do Brasil, segundo o IBGE, é de 213 milhões de pessoas. Considerando que 16% não podem receber a vacina por não ter disponível, será preciso vacinar todos com 12 anos ou mais que representam 83% da população total. No entanto, em uma campanha não se espera vacinar 100% de todos os elegíveis, pois muitos não vão querer tomar pelos mais variados motivos. Para contornar essa situação, planejamos sempre vacinar cerca de 90% da população elegível.


Com base nesta proporção de 90% de cobertura da população acima de 11 anos de idade, precisamos vacinar 160.746.651 milhões de pessoas com 12 anos ou mais de idade. Isso passa a representar, portanto, 75,5% da população total do Brasil. Ou seja, precisamos avançar com a vacinação de adolescentes e com urgência, não só pela necessidade de atingirmos a imunidade coletiva, mas também para mitigar a circulação da variante Delta.

Podemos observar que as vacinas estão demonstrando sua resolutividade reduzindo o número de casos e óbitos, principalmente após atingirmos 34% da população total com pelo menos uma dose. Atualmente estamos realizando cerca de 30 milhões de doses por mês. Já vacinamos 93 milhões e faltam cerca de 67 milhões para garantir 90% de cobertura de toda a população a partir de 12 anos de idade. Com isso, teremos total capacidade de reduzir os prazos e planejar o retorno à normalidade em 2022.


ANÁLISE COMPARADA E MARCOS HISTÓRICOS

Introdução


Parece que foi ontem, mas, acredite se quiser, hoje faz um ano e meio que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aplicou o Regulamento Sanitário Internacional (RSI) pela quinta vez seguida desde a entrada em vigor do novo texto em junho de 2007. Com base no Anexo II do RSI a OMS declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) em 30 de janeiro de 2020 (Figura 1).


Figura 1. Período entre alguns marcos temporais e o dia 30 de julho de 2021.

Tempo decorrido até 30/07/2021 desde:
- Declaração de Emergência Internacional pela OMS (30/01/2020): 
  547 dias (1 ano, 6 meses)
- Declaração de Emergência Nacional pelo MS (03/02/2020): 
  543 dias (1 ano, 5 meses e 27 dias)
- Primeiro caso confirmado no Brasil (26/02/2020)
  520 dias (1 ano, 5 meses, 4 dias)
- Primeiro óbito confirmado no Brasil (12/03/2021)
  505 dias (1 ano, 4 meses e 18 dias)
- Primeira pessoa vacinada na campanha no Brasil (17/01/2021)
  194 dias (6 meses e 13 dias)

O RSI foi aprovado em 2005 após passar 10 anos em revisão. Em 2007 ele entrou em vigor e em 2009 a OMS aplicou, pela primeira vez a OMS aplicou o conceito de ESPII. Ao longo de 11 anos foram 5 emergências internacionais declaradas a partir deste dispositivo. Em todas as situações os agentes eram vírus, sendo a COVID-19 o segundo evento de transmissão respiratória (Figura 2).


Figura 2. Momentos em que a OMS declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional e características dos eventos.

Coronavírus


Segundo a classificação internacional, são reconhecidas 39 espécies de Coronavírus no mundo, sendo em muitas situações encontradas em morcegos como hospedeiros primários e eventualmente em humanos como hospedeiros acidentais.


De 39 espécies, 7 (sete) podem causar doença em humanos e 3 podem causar Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), cujo termo em inglês é reconhecido pelo acrônimo SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome). O vírus SARS-CoV-2 é o responsável pela Doença pelo Coronavírus 2019 (COVID-19). As demais causam boa parte das gripes e resfriados anualmente (Figura 3).


Figura 3. Árvore dos Coronavírus e principais variantes recentes do SARS-CoV-2.

Os Coronavírus infectam diversos animais como anfíbios, aves e mamíferos. Segundo dados dos EUA até início de julho de 2021 foram identificados 217 casos de Coronavírus em animais, sendo mais frequente em gatos, cães, tigres, visons, leões entre outras espécies animais. Esta é uma preocupação, principalmente em relação aos animais silvestres e sinantrópicos, pois podem atuar como hospedeiros primários no futuro, albergando estes vírus e causando padrões epidêmicos como ocorre com Febre Amarela em macacos. Por este motivo, o Ministério da Saúde deveria estar fomentando pesquisas e monitoramento em animais com apoio de universidades e o próprio Instituto Evandro Chagas no Pará que é da Secretaria de Vigilância em Saúde do próprio MS. Será que estão fazendo?


Variantes de SARS-CoV-2


A variante que ocorre no Brasil de modo mais frequente é a Gama (P1), com cerca de 87% de frequência identificada nas últimas semanas (Figura 4).


Figura 4. Proporção de variantes de importância para a saúde pública do Brasil.

Fonte: CoVariants - acesso: 30 de julho às 8h


Considerando o padrão observado em outros países, é uma questão de tempo para que a variante Delta substitua a variante Gama no Brasil. Atualmente a Delta representa cerca de 12%. No entanto, venho acompanhando a evolução da variante em vários países e foram necessárias apenas entre 4-8 semanas para que a Delta seja a variante mais frequentemente identificada (Figura 5).


Figura 5. Proporção das variantes de preocupação no Brasil e em comparação a outros países de relevância para o monitoramento da COVID-19 no Brasil.

Fonte: OWID - acesso: 30 de julho às 8h


Delta substitua a variante Gama no Brasil. Atualmente a Delta representa cerca de 12% e está mais presente em amostras do Sudeste (6%), Nordeste (3%) e Sul (2%). A Gama está com padrões diferenciados na proteína Spike na região Norte (Figura 6).


Figura 6. Proporção de variantes de preocupação no Brasil por região geográfica até julho de 2021

Fonte: Rede Genômica Fiocruz acesso: 30 de julho às 8h


Comparação da situação epidemiológica


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até início da manhã de 30 de julho de 2021 foram registrados 195.886.929 milhões de casos e 4.189.148 milhões de óbitos confirmados. Foram 42.283 casos e 1.318 óbitos novos.


O Brasil representa 10% do total de casos com 19,8 milhões de casos confirmados e 2% dos óbitos totais registrados desde o início da Pandemia de COVID-19.


Brasil x Países das Américas nos últimos 30 dias


Casos confirmados


Na comparação de casos confirmados de países das américas, podemos observar que o Brasil se encontra na terceira posição atrás apenas da Argentina e Costa Rica (Figura 7).


Figura 7. Distribuição de casos confirmados de COVID-19 nos últimos 30 dias em alguns países das Américas até 30 de julho de 2021


Óbitos confirmados


Na comparação de óbitos confirmados de países das américas, podemos observar que o Brasil mantém a terceira posição atrás apenas da Argentina e Colômbia (Figura 8).


Figura 8. Distribuição de óbitos confirmados de COVID-19 nos últimos 30 dias em alguns países das Américas até 30 de julho de 2021


Testes realizados por caso confirmado


Em relação ao número de testes realizados por cada caso confirmado, o Brasil tem tão pouco teste que nem aparece entre os países no painel (Figura 9).


Figura 9. Distribuição do número de testes realizados por cada caso confirmados de COVID-19 nos últimos 30 dias em alguns países das Américas até 30 de julho de 2021



Segundo o Ministério da Saúde foram distribuídos 32.422.103 testes. Apenas como exercício, se dividirmos pelo total de casos 195.886.929, podemos estimar que fizemos cerca de 2 a 3 testes por cada caso confirmado. Isto levando em consideração que Estados, Municípios e iniciativa privada também estão fazendo os testes por sua conta e risco.


Em síntese, o que este nível de testagem demonstra é que a nossa letalidade está elevada por causa da pouca testagem. Também podemos considerar que muitos devem estar inserindo no sistema apenas os casos confirmados, primordialmente. Além disso, como há poucos testes disponíveis e a burocracia para fazer é elevada, resulta que a maioria dos testados são os 'verdadeiros positivos'. Isso acaba afetando sobremaneira a qualidade da informação, pois passa uma sensação de que a coisa está pior ou menos crítica do está na realidade. É claro que a internação e o óbito são parâmetros objetivos, no entanto são tardios e não refletem a realidade do momento. Ou seja, o governo está navegando sem bússola!


Taxa de reprodução do vírus


Veja que a testagem vai influenciar também na taxa de reprodução, pois quanto mais pessoas forem testadas, melhor será o modelo para representar a taxa de reprodução real do vírus (Figura 10).


Figura 10. Taxa de reprodução do vírus em 30 de julho de 2021 em comparação com países das américas.


Letalidade (proporção de óbitos por COVID-19 em relação ao número de casos confirmados)


Outro indicador que acaba sendo fragilizado pela baixa testagem é a letalidade. Por se tratar de uma proporção de casos que evoluíram para óbito (numerador) em relação ao número de pessoas que pegaram a doença (denominador), obviamente este indicador fica prejudicado se estou testando menos que os demais.


A taxa de letalidade do Brasil está em 2,64%, no entanto deveria estar próxima da taxa dos Estados Unidos cerca de 1%. Para isso, é preciso que o país invista em mais testes e oriente que os municípios (unidades de saúde públicas e privadas) registrem todos os testes realizados e não apenas os positivos (Figura 11).


Figura 11. Taxa de letalidade atual por COVID-19.


Proporção de pessoas que receberam uma ou mais doses da vacina


É importante observar a proporção de pessoas na população em geral, de cada país, que recebeu pelo menos uma dose da vacina. Veja que proporcionalmente nas Américas o Uruguai, Chile, Canadá, EUA e Argentina apresentam índices melhores do que o Brasi. (Figura 12).


Figura 12. Proporção de pessoas com, pelo menos, uma dose de vacina contra COVID-19 até 30 de julho de 2021.



Proporção de pessoas com esquema completo (duas doses ou dose única)


Todos sabem que para ter proteção completa é preciso receber duas doses quando a vacina assim for indicada ou dose única. Neste sentido, o Chile, Uruguai, Canadá, Estados Unidos, Colômbia e México estão com melhor proporção que o Brasil (Figura 13).


Figura 12. Proporção de pessoas com esquema completo de vacina contra COVID-19 até 30 de julho de 2021.


Excesso de mortalidade em comparação com o período de 2015-2019


Uma outra importante análise que é regularmente realizada é o avaliação do excesso de mortes que ocorreram, considerando todas as causas de mortes em comparação com anos anteriores. Ou seja, no gráfico abaixo é mostrado como o número de mortes semanais ou mensais em 2020–2021 difere como uma porcentagem do número médio de mortes no mesmo período ao longo dos anos 2015–2019. Essa métrica é chamada de P-score. O número de mortes relatadas pode não contar todas as mortes que ocorreram devido à cobertura incompleta e atrasos na notificação de óbitos


Em 2021, nas Américas, o Brasil ficou em terceiro lugar em excesso de mortes, atrás apenas da Colômbia e Peru nesta comparação (Figura 13).


Figura 13. Excesso de mortes em 2020-2021 em comparação com as mortes que ocorreram entre 2015-2019, até 30 de julho de 2021.



Brasil x Países da Europa, Ásia, Oceania, Oriente Médio e África


Agora vamos comparar o Brasil com países de outros continentes que possuem grande número de habitantes, como também foram afetados pela COVID-19 de modo importante.


Casos confirmados


Na comparação de casos confirmados com os demais países, podemos observar que o Brasil se encontra na quinta posição atrás apenas da Espanha, Reino Unido, França e Portugal (Figura 14).


Figura 14. Distribuição de casos confirmados de COVID-19 nos últimos 30 dias em alguns países das Américas até 30 de julho de 2021


Óbitos confirmados


Na comparação de óbitos confirmados, podemos observar que o Brasil só perde para a África do Sul, mesmo assim com queda muito mais lenta. Devemos ficar atentos para a circulação da Delta nesses países. Apesar desta variante ocasionar menos óbitos de modo geral, esse fato é mais "verdadeiro" em países com elevada cobertura vacinal (Figura 15).


Figura 15. Distribuição de óbitos confirmados de COVID-19 nos últimos 30 dias em alguns países das Américas até 30 de julho de 2021


Testes realizados


Não por acaso a Austrália é um dos países com melhor resposta à Pandemia. Eles fizeram testes massivos e isolaram ativamente os doentes (Figura 16).


Figura 16. Distribuição do número de testes realizados por cada caso confirmados de COVID-19 nos últimos 30 dias em alguns países das Américas até 30 de julho de 2021


Taxa de reprodução do vírus


Veja que a testagem vai influenciar também na taxa de reprodução, pois quanto mais pessoas forem testadas, melhor será o modelo para representar a taxa de reprodução real do vírus (Figura 17).


Figura 17. Taxa de reprodução do vírus em 30 de julho de 2021 em comparação com países das américas.


Letalidade (proporção de óbitos por COVID-19 em relação ao número de casos confirmados)


A taxa de letalidade do Brasil está em 2,64%, no entanto deveria estar próxima da taxa da Austrália cerca de 1%. Para isso, é preciso que o país invista em mais testes e oriente que os municípios (unidades de saúde públicas e privadas) registrem todos os testes realizados e não apenas os positivos (Figura 18).


Figura 18. Taxa de letalidade atual por COVID-19.



Proporção de pessoas que receberam uma ou mais doses da vacina


É importante observar a proporção de pessoas na população em geral, de cada país, que recebeu pelo menos uma dose da vacina. Veja que proporcionalmente o Brasil está na sétima posição (Figura 19).


Figura 19. Proporção de pessoas com, pelo menos, uma dose de vacina contra COVID-19 até 30 de julho de 2021.

Proporção de pessoas com esquema completo (duas doses ou dose única)


Comparado com estes países, o Brasil precisa melhorar muito (Figura 20).


Figura 20. Proporção de pessoas com esquema completo de vacina contra COVID-19 até 30 de julho de 2021.


Excesso de mortalidade em comparação com o período de 2015-2019


Em comparação com estes países o Brasil recebe a lamentável medalha de outro de excesso de mortes por COVID-19 (Figura 21).