COVID-19: análise do padrão de incidência e tendência temporal de casos e óbitos até SE28/2020

Que o Brasil é continental e apresenta padrões de ocorrência de síndromes respiratórias todos já estão cientes. No entanto, o que poucos sabem é que os diferentes "brasis" são quatro. Nesta análise, apresento por data de ocorrência desde os primeiros casos e óbitos.


As regiões não seguem o padrão político-administrativo-geográfico conhecido. Os vírus não seguem o padrão exato das regiões, seja por barreiras geográficas ou mesmo microclimas, como descrito na classificação climática de Koppen-Geiger.


Desde os primeiros Boletins Epidemiológicos, tenho reforçado as diferenças regionais, como está na página 17 do Boletim Epidemiológico nº 6. Em todos os momentos, falamos que devido às dimensões continentais do Brasil, estendendo-se por áreas temperadas, subtropicais e equatoriais, é possível identificar distintos padrões de sazonalidade dos vírus influenza nas diferentes regiões do país (Mello et al., 2009, Motta et al., 2006, Moura et al., 2009, SVS, 2009).


No Brasil, a região Sul apresenta uma sazonalidade similar à observada nos países de clima temperado, com pico da epidemia no inverno (junho-julho) (Straliotto et al., 2002) - (figura 12).


A região Norte apresenta dois picos, sendo o maior em associação ao período chuvoso (março-abril), como observado em países tropicais da Ásia (Moura et al., 2009). O reflexo dessa padrão foi sentido exatamente a partir de 20 de março com a entrada do outono. É possível perceber na Curvatura de Forman-Ricci (Fig 1), realizado pelo trabalho que fazemos por meio do IRRD que o padrão começa a apresentar alteração nesse momento, chegando em um estabilização a partir de 20 de junho, com pequena tendência de queda. No entanto, ainda sutil possivelmente pela interiorização da circulação.


Figura 1. Distribuição comparada de casos confirmados e média de Forman-Ricci do Estado do Amazonas.


Nas demais regiões do Brasil, temos uma situação intermediária, com casos detectados ao longo de todo ano e picos menos acentuados no inverno (Alonso et al., 2007). Entretanto, a descontinuidade e a falta de homogeneidade dos serviços de epidemiologia nas diferentes regiões do país dificultam muito a comparação entre os dados de circulação de influenza.


Eu acredito que, neste ano, tivemos um "viés de performance e detecção" resultando em maior registro, quando comparado com o histórico passado. Observe na figura 2 que entramos na epidemia com um número muito pequeno de Unidades Sentinelas na região Norte e com vazios de vigilância em alguns Estados do norte como Pará e Amapá. Portanto, esse aumento na região norte, pode ser parcialmente justificado pela maior capacidade de coleta e análise. No início de 2019, a cidade de Manaus já havia enfrentado dificuldades com 28 óbitos e 110 casos, como nessa reportagem do G1. Portanto, seria provável que pelo padrão da COVID-19 observado em outros países, seria bastante desafiador para a região norte cuja rede de serviços é limitada, mesmo para a rotina de atendimento.


Figura 2. Distribuição espacial da localização de unidades sentinelas de Síndrome Gripal no Brasil no início da pandemia de COVID-19, segundo SIVEP-Gripe.



Na figura 3 podemos observar que a Região Noroeste (verde) iniciou primeiro, seguida da Região Leste (azul), posteriormente observamos um aumento no final de abril na Região Sul (roxa), mas rapidamente superada pela Região Centro-Norte (amarela), com detalhamento nas figuras 4 a 8.


Esse padrão segue exatamente o descrito no Info Gripe da Fiocruz. É claro que dentro de cada região e estado também há diferenças. O objetivo dessa avaliação é apenas para reflexão e observação como epidemiologista.


Figura 3. Distribuição temporal e espacial da incidência de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes e média móvel de 7 dias, até semana epidemiológica 28 (11/07)


Figura 4. BRASIL - Distribuição temporal e espacial da incidência de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes e média móvel de 7 dias, até semana epidemiológica 28 (11/07)


Figura 5. NOROESTE - Distribuição temporal e espacial da incidência de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes e média móvel de 7 dias, até semana epidemiológica 28 (11/07)


Figura 6. LESTE - Distribuição temporal e espacial da incidência de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes e média móvel de 7 dias, até semana epidemiológica 28 (11/07)


Figura 7. CENTRO-NORTE - Distribuição temporal e espacial da incidência de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes e média móvel de 7 dias, até semana epidemiológica 28 (11/07)


Figura 8. SUL - Distribuição temporal e espacial da incidência de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes e média móvel de 7 dias, até semana epidemiológica 28 (11/07)



Na figura 9, a análise segue o padrão de referência de um dos artigos que escrevemos em 2012, onde avaliamos o excesso de óbitos denominado "Influenza-associated excess mortality in southern Brazil, 1980–2008". Nesse trabalho, buscamos encontrar um padrão mais simples para divisão territorial e achamos que o paralelo 15 sul poderia descrever melhor as diferenças na latitude observadas.


Do mesmo modo, podemos observar que a região acima do paralelo 15s (azul) quando comparada por 100 mil habitantes com a região abaixo (verde), está apresentando queda. No entanto, a região abaixo está com tendência de aumento, apesar de um pequeno vale em meados de 10 de junho.


Figura 9. Distribuição temporal e espacial da incidência de casos confirmados de COVID-19 por milhão de habitantes e média móvel de 7 dias, até semana epidemiológica 28 (11/07)


Referências


Para realizar essa análise, utilizei os parâmetros descritos por Claudia Codeço e Marcelo Gomes que estudam os padrões de vírus respiratórios no Brasil há anos, como nesse trabalho "A modelling approach for correcting reporting delays in disease surveillance data". Eles são os profissionais responsáveis pelo painel Info Gripe da Fundação Oswaldo Cruz.


Para os dados sobre casos e óbitos, utilizei o ótimo dataset (base de dados) do Repositório de dados públicos disponibilizados em formato acessível pelo Brasil IO.


Comentários finais


Recentemente, tenho acompanhado vários especialistas "prevendo" que uma segunda onda será improvável. Considero essa manifestação precipitada, apesar de desejá-la. No entanto, infelizmente temos que aguardar até meados de agosto, pois há um atraso (delay) de quase 21 dias na atualização das bases de dados. Ou seja, o retrato de hoje teve a pose há 3 semanas. Enquanto isso, vamos dar tempo ao tempo, usar máscaras, lavar as mãos e fazer distanciamento social, pois falta pouco para não morrermos na praia.

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