COVID-19: Manaus, escolas e imunidade







O Estado do Amazonas possui uma das experiências mais duras da COVID-19 no Brasil. Com uma população estimada no estado de 4.144.597 milhões de pessoas em 2019, das quais 53% (2.182.763) vivendo na capital Manaus.


Até 19 de agosto, o Estado acumulou um total de 113.592 casos confirmados e 3.537 óbitos, nesta data com 3,1% de letalidade. Atualmente está com ocupação de 34,1% de UTI COVID-19 e 29,4% de leitos clínicos específicos para a doença.


A população em risco no Estado do Amazonas é de 11,35% de idosos e 13,35% que possui ao menos uma doença crônica, sendo 14,5% hipertensão, 5,4% diabetes, 0,46% de doenças do sistema respiratório e 1,7% doenças cardiovasculares.


No Amazonas, 3,9% dos idosos e adultos residem com menores de 3 a 17 anos de idade, sendo que 1,3% dos adultos com idade entre 18 e 59 anos que apresentam diabetes, doença cardiovascular ou doença do sistema respiratório e idosos com 60 anos ou mais são 2,6%.


Segundo o painel da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) do Estado do Amazonas, as crianças menores de 10 anos representam 8,2% do total de casos de COVID-19 no consolidado desde o início da epidemia, sendo 8,7% das hospitalizações e 1,2% dos óbitos.

Segundo o padrão de sinais e sintomas, o perfil segue o descrito na literatura, com febre e tosse representando presença em 62% dos casos, seguido de dor de garganta com 44% e dispneia em 29,4%.


Um dado interessante que corrobora com o padrão observado em outras regiões é o perfil de fatores de riscos e comorbidades apresentadas.


Podemos observar que entre pessoas com 60 anos ou mais, 81% não relatam comorbidades e 94% entre os menores de 60 anos. No entanto, os óbitos em >= 60 anos apresentam cardiopatia, diabetes, doença renal, doenças neurológicas, pneumopatias e obesidade como os principais fatores. Por outro lado, entre os <60 anos a obesidade e imunodepressão são os diferenciais.

Desde a semana epidemiológica 19, iniciada em 3 de maio, o Estado apresenta tendência sustentada de queda de hospitalizações por Síndrome Respiratória Aguda Grave. Estamos na semana epidemiológica 34, portanto 15 semanas consecutivas em queda. Isso é um dado importante.




Sobre testes laboratoriais


No total, foram realizados 267.744 testes, sendo 33.917 testes moleculares e 233.827 testes sorológicos. A positividade acumulada dos testes moleculares é de 37% e de 41% entre os sorológicos que incluem os testes imunocromatográficos e de quimioluminescência.


A Fundação de Vigilância em Saúde fez um trabalho de ampliação impressionante. O Laboratório Central do Amazonas iniciou a epidemia sem capacidade operacional. Em minha gestão fizemos um trabalho conjunto de fortalecimento e hoje o Estado consegue fazer 1.000 amostras por dia, sendo 600 no LACEN, 200 na FHVD e 200 na Fiocruz do Amazonas em um esforço conjunto. Fico muito feliz em observar a evoluçãoo apesar do Estado ter, lamentavelmente enfrentado uma situação muito mais difícil, no início da onda junto com São Paulo, justificado parcialmente por ser um polo internacional importante e pelo padrão sazonal do chamado "Inverno Amazônico" que ocorre de dezembro a maio de cada ano.


O chamado " inverno amazônico" é a denominação regional em parte das Regiões Norte e Nordeste do Brasil do período mais chuvoso do ano. É um nome popular utilizado por quem vive nestas Regiões para justificar um período com mais nebulosidade e chuva frequente, quando faz menos calor.

Sobre a COVID-19 entre profissionais de saúde, foram testados 22.217 profissionais, sendo que 7.264 (3,3%) foram positivos.



Sobre o retorno escolar em Manaus


O Estado do Amazonas interrompeu as atividades escolares há 112 dias ou 3 meses e 20 dias, por meio do Decreto Nº 42061 de 16 de março de 2020. O primeiro óbito no Estado ocorreu em 24 de março.


Em 06 de julho, cerca de 200 escolas privadas retornaram suas atividades presenciais com plano de prevenção rígido e responsável. Desde então, não ocorreram notificações de casos suspeitos entre as escolas particulares. Dois casos foram identificados como fonte de infecção domiciliar, onde os pais dos alunos que pegaram COVID-19 em outras fontes de infecção, segundo as investigações epidemiológicas realizadas.


Em 10 de agosto, 30 dias após a abertura das escolas privadas, 124 escolas estaduais de ensino médio retornaram as atividades presenciais. Desde então foram 24 notificações de casos e coleta de todos os casos suspeitos. As amostras estão em processamento e devem ter sua conclusão hoje.


A FVS está realizando testagem regular e encontrando cerca de 20% de positividade com persistência de IgG.



Reflexões sobre o assunto


O Município de Manaus adotou a postura correta em iniciar o retorno escolar presencial em momento de queda sustentável da incidência e mortalidade. É uma decisão difícil e complexa. Lamentavelmente, problemas ocorreram e acabaram virando "memes" nas redes sociais como o episódio das máscaras. No entanto, é lamentável como a imprensa e os especialistas não vejam os resultados positivos também. Eu conheço os profissionais do Estado do Amazonas e do Município de Manaus.


Antes de criticar e rejeitar as evidências e fatos é preciso lembrar que o Estado enfrentou um dos maiores surtos de sarampo, migração intensa e muita pressão sobre o sistema de saúde local. Tudo isso não foi e não é fácil para esse profissionais do Sistema Único de Saúde que já entra na maior pandemia do século com um histórico de surto de influenza em 2019 em que também ocorreu excesso de óbitos. Ou seja, antes de duvidar, criticar ou rejeitar os dados, entenda primeiro o contexto.


Alguns epidemiologistas podem alegar que no AM foi atingida a imunidade coletiva ("rebanho"), com cerca de 24% da população exposta. Isso é um fato que não deve ser desprezado. No entanto, ainda há cerca de 3 milhões de pessoas suscetíveis, considerando os estudos do MIT/EUA como referência. Segundo a instituição americana, devemos ter 10x o número de casos e 1,5x de óbitos. Ou seja, podemos ter 1,1 milhão de pessoas que foram infectadas ao longo desse período e 5,3 mil óbitos.




IMUNIDADE COLETIVA


Para certos patógenos, como o coronavírus 2 da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2), as manifestações clínicas são um fraco indicador de transmissibilidade, pois os hospedeiros assintomáticos podem ser altamente infecciosos e contribuir para a disseminação de uma epidemia.


Uma vez atingido o limiar de imunidade coletiva a eficácia da imunidade coletiva depende em grande parte da força e duração da imunidade adquirida


Para patógenos nos quais a imunidade ao longo da vida é induzida, como é o caso da vacinação ou infecção contra o sarampo, a imunidade coletiva é altamente eficaz e pode impedir a propagação de patógenos na população.


No entanto, essa situação é relativamente rara, pois imunidade contra outras doenças infecciosas, como coqueluche e rotavírus, diminui com o tempo.


Conforme diz o Professor José da Rocha Carvalheiro, de modo muito didático explica que o próprio autor da teoria original de "imunidade de rebanho" abandonou a teoria. O Professor considera esse tema como parte da estrutura epidemiológica que é uma "externalidade positiva" onde um conjunto da população está imunizada, sendo 30% da população está imunizada e não vão se infectar e isso irá variar de uma doença para outra. Deste modo, o correto de interpretar é: "se o número de imunizados for de 80%, a imunidade de rebanho se expressa mais claramente do que se for 30%".


Conforme no gráfico abaixo, podemos observar graficamente a explicação que o professor Carvalheiro deu no podcast "Pandemia possui lacunas importantes a serem desvendadas".

Fica a dica para você ouvir o podcast do Jornal da USP e também ler o artigo do Professor Carvalheiro denominado "Os coletivos da Covid-19".


Referências:

  1. Painel do Governo de Estado do Amazonas

  2. CARVALHEIRO, JOSÉ DA ROCHA. (2020). Os coletivos da Covid-19. Estudos Avançados, 34(99), 7-24. Epub 10 de julho de 2020.https://dx.doi.org/10.1590/s0103-4014.2020.3499.002

  3. Jornal da USP - 4 de agosto de 2020 - Pandemia possui lacunas importantes a serem desvendadas - José da Rocha Carvalheiro diz que o Sistema Único de Saúde integrado entre os entes federativos ajudou a minimizar os impactos da pandemia, mesmo sem o governo federal ter coordenado as ações

  4. Gordis, Leon. Epidemiologia. Rio de Janeiro, Editora Thieme Revinter Publicações LTDA. 5ª Edição. Rio de Janeiro, 17 de nov. de 2017

  5. Randolph HE, Barreiro LB. Imunidade de rebanho: Noções básicas sobre COVID-19. Imunidade . 2020; 52 (5): 737-741. doi: 10.1016 / j.immuni.2020.04.012



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