COVID-19 NO BRASIL: "PARA O ALTO E AVANTE!"

Up, Up and Away!, para o alto e avante, foi uma frase criada pela que foi criada pela DC Comics após uma série de um ano em que o Superman "desaparece". O nome da série é Crise Infinita (um bom nome para traduzir essa pandemia) em que o Superman perde seus poderes, passando a agir exclusivamente como "Clark Kent". No entanto, é durante a história que ele os recupera. Nessa analogia, vamos avaliar a nossa "Crise Infinita".

Hoje acordei com 2.7 milhões de casos e mais de 93 mil pessoas que padeceram em decorrência da COVID-19. Como no reino animal, essa pandemia está provocando muitas mudas (mudanças) na sociedade. Mas para a sociedade chegar e sobreviver para voar, como uma borboleta, ainda vamos precisar romper o casulo da ignorância, da desigualdade, da desinformação...

Estimativas do MIT (Massachusetts Institute of Technology) sugerem em 18/06 a doença já teria afetado 249 milhões de casos de coronavírus e 1,75 milhão de mortes. Portanto, 12 vezes maior que os relatórios oficiais e o número de mortes 1,5 vezes maior.

Deste modo, segundo o MIT, em 02 de agosto de 2020, podemos estar com 32.494.524 de casos e 140.344,5 óbitos. Observe que, mesmo considerando esse cenário, ainda possuímos 180 milhões de pessoas suscetíveis. Ou seja, ainda precisamos de heróis usando máscaras o tempo todo, pois ainda há tempo. Seja parte da solução e não do problema.


Impacto das políticas na saúde


Há 47 anos o Programa Nacional de Imunização (PNI) foi criado para erradicação da varíola. Em 1975, em resposta à epidemia da desinformação, retratada na revista de 30 de outubro da revista VEJA de 1972. No entanto, foram necessários 3 anos de muito debate e após a 5ª Conferência Nacional de Saúde foi quando a doença começou afetar as pessoas mais ricas do centro das grandes metrópoles que a ação foi feita. Em agosto de 1975 foram apresentadas as conclusões e recomendações do CNS sobre cada um dos seguintes temas:


1. Implementação do Sistema Nacional de Saúde;

2. Programa de Saúde Materno-Infantil;

3 Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica;

4. Programa de Controle das Grandes Endemias; e

5. Programa de Extensão das Ações de Saúde às Populações Rurais.


Para se ter uma ideia do impacto que as políticas e os políticos promovem na transmissão de doenças e redução de mortalidade, podemos ver na figura abaixo que em 1979 a Taxa de mortalidade infantil (TMI), óbitos antes de completar um ano de idade, era de 90 óbitos por 100.000 crianças. Em 2018 essa 12,4 para cada mil nascidos vivos.


Outro exemplo foi a eliminação da Rubéola. Em 1997 iniciou-se a notificação obrigatória, seguida de campanhas e muito investimento em comunicação, vacinação e educação em saúde. Em 2008 conseguimos eliminá-la.



Por outro lado, o inverso também é verdadeiro. Lamentavelmente, autoridades públicas em todas as esferas de gestão adotaram posturas controversas e isso acabou dificultando ainda mais o controle da doença. Em 11 de maio, o jornal Correio Braziliense publicou uma matéria cujo título era "Levantamento: Bolsonaro vem errando sistematicamente ao comentar pandemia".


Seis meses da declaração de emergência nacional


Há seis meses, estava fazendo os últimos ajustes na minuta de portaria para declaração de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN). A primeira vez foi em 11 de novembro de 2015, em decorrência da Síndrome Congênita pelo vírus Zika e desta vez pela Doença pelo Coronavírus 2019 (COVID-19). Nas duas ocasiões, fui responsável pela elaboração e espero não ter que fazer isso novamente, enquanto eu estiver vivo.


A portaria nº 188 foi escrita com base no Decreto nº 7616/2011 que também tive a honra de contribuir na elaboração. Esta portaria estabeleceu o Centro de Operações de Emergências em Saúde Pública sob gestão da Secretaria de Vigilância em Saúde, na gestão do Ministro Luiz Henrique Mandetta. No entanto, desde mudança de ministro, o COE-COVID-19 passou a ser gerido pela Secretaria Executiva.


Para o alto e avante


Em fevereiro, quando publicamos a portaria, tínhamos dois caso apenas. Em artigo publicado recentemente ficou demonstrado que a introdução se deu no final de fevereiro a partir de casos importados da Itália. Em 13 de março foi ampliada a restrição e distanciamento social,e restringimos o embarque em navios de cruzeiro. No entanto, por pressão setorial e político, em 14 de março foi retirada a medida.

Permaneci durante a gestão de Mandetta e Teich. Nesse período, saímos com 34.397 casos e 200.178 respectivamente em um período de 2 meses e 21 dias (25/02 a 16/05), somando 234.575 casos, representando 8,7%. Entre 17 de maio e 2 de agosto, 2 meses e 16 dias, somam-se 2.475.349 casos.




Em 6 de abril, no Boletim Epidemiológico 07, apresentamos o modelo adaptado de fases epidêmicas. Naquela ocasião, falamos da projeção de adoção de distanciamento social ampliado. Conseguimos adiar o período de maior incidência, deslocando para a direita como podemos ver na figura abaixo. No entanto, a magnitude ou altura da curva poderia ser mais baixa. Para isso, carece de estratégia de comunicação de risco. Atualmente, podemos considerar que estamos em crescimento acelerado ainda. Não creio que tenhamos chegado ao pico.



No inicio da pandemia os intervalos são menores, mas o número de caso também é menor. Na medida que o tempo passa, os números são maiores, mas tendem a ser um pouco maior o período.


Entre 20 de junho e 17 de julho, foram apenas 28 dias para sair de 1 milhão para 2 milhões de registros novos, foram 35 mil casos atualizados diariamente, sendo a maior incidência do período, até o momento. Exatamente no período que eu vinha alertando há semanas. No entanto, o aumento de casos ainda não deve ser sido interrompido e me parece que ainda veremos muitos casos na primeira quinzena de agosto, antes de observar uma tendência de redução. Mas para isso, só a manutenção das medidas de distanciamento social. Infelizmente, a sociedade está se cansando.


A FIOCRUZ, por meio do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT) desenvolveu o excelente painel MonitoraCovid-19. Você pode obter uma série de informações incríveis e interativas. Na análise fator de crescimento, método que permite comparar os dados do Brasil e Unidades Federativas com o cenário de outros países analisando a propagação dos casos diariamente. Este fator é construído considerando como o número de casos aumenta ao longo do tempo. Neste exemplo, podemos verificar que se compararmos com os EUA o ângulo da curva projetada é ainda mais vertical. Ou seja, estamos "para o alto e avante!".

Interiorização e mudanças no perfil da pandemia


Em 17 de abril, quando encerrou a gestão do Ministro Luiz Henrique Mandetta, só os municípios com mais de 500 mil habitantes estavam com todos com casos registrados.

Em 16 de maio, quando encerrou a gestão do Ministro Nelson Teich, os município de 100 mil a 500 mil habitantes também atingiram 100%.


Até 31 de julho, todos os municípios acima de 10 mil habitantes tinham pelo menos um registro confirmado de COVID-19.


A COVID-19 está presente ou passou por 98% dos municípios, 5.463 municípios com casos confirmados de COVID-19 entre os 5.570 municípios totais. Apenas municípios com até 20 mil habitantes não tiveram registros de casos confirmados. No entanto, não é possível afirmar que em todos os 107 municípios não tenha ocorrido casos, uma vez que os testes laboratoriais nesses locais é uma fragilidade real. Possivelmente, o vírus já cobriu todo o território nacional nesses seis meses.





O nosso é um vírus microscópico!!!
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