Covid-19: para onde vamos?

Atualizado: Jan 6

Em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) por Doença pelo Coronavírus 2019. Com isso, completamos 11 meses ou 335 dias corridos desde a declaração que inicialmente não estava reconhecida como Pandemia, fato que só ocorreu em março.


Os coronavírus foram descritos em 1968, são vírus de RNA cuja análise filogenética demonstra que o agente etiológico da Doença pelo Coronavírus 2019 (COVID-19) é um betacoronavírus do mesmo subgênero que o vírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS) que afetou o mundo no final de 2002 e tudo indica que tenha como hospedeiro primário os morcegos e hospedeiro intermediário ainda está indefinido. Teorias conspiratórias de fabricação do vírus em laboratório foram refutadas ao longo desses 11 meses e não se sustentam pelo s imples


Da ordem dos Nidovirales, a subfamília Coronavírus é classificada em quatro gêneros alfa, beta, gama e delta. Os coronavírus humanos (HCoVs) estão distribuídos em dois destes gêneros: alfa coronavírus (HCoV-229E e HCoV-NL63) e beta coronavírus (HCoV-HKU1, HCoV-OC43, síndrome respiratória do Oriente Médio coronavírus - MERS-CoV, o coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV1) e SARS-CoV2, definido assim pelo Coronavirus Study Group do International Committee on Taxonomy of Viruses.


Estudos nas décadas de 1970 e 1980 os vincularam a até um terço das infecções do trato respiratório superior durante surtos de inverno, 5 a 10% do total de resfriados em adultos e a alguma proporção de doenças respiratórias inferiores em crianças. Portanto, já podemos supor que parte da população que pegou infecções recentes por outros coronavírus, possivelmente apresentaram algum nível de proteção cruzada. Principalmente na China, berço ou reservatório natural dos coronavírus. Com isso, fica uma pergunta importante, os coronavírus irão se estabelecer entre animais silvestres, sinantrópicos ou domesticados do novo mundo? Esse fato ocorreu com outros vírus como a Febre do Oeste do Nilo quando entrou em Nova York em 1999 ou mesmo a Febre Amarela no Brasil, que foi introduzida no trânsito marítimo. Só o tempo vai dizer, mas poderia apostar que o vírus irá se tornar endêmico e os animais serão importantes para essa manutenção no ambiente, podendo ocasionar surtos esporádicos ou epidemias a depender das mutações e da imunidade coletiva do momento. Temos que lembrar que cepas e linhagens do vírus podem surgir a todo instante e cerca de duas mutações importantes são descritas desde a descoberta do vírus no início de janeiro de 2020.


Situação epidemiológica


Segundo o Painel Coronavírus do Ministério da Saúde, até 30 de dezembro às 19 horas, o Brasil contabilizou 7,6 milhões de casos e 193,9 mil óbitos, com uma letalidade de 2,5%. Com base nos dados parciais de 2020, publicados no site Our World in Data da Universidade de Oxford, fiz o download da base de dados e consolidei a incidência por semana epidemiológica de notificação.


Incidência de casos de COVID-19 por 100 mil habitantes e semana epidemiológica


De acordo com os dados abertos publicados, registrou o primeiro caso confirmado na Semana Epidemiológica 09, que se encerra em 29 de fevereiro. Demoramos um total de 22 semanas epidemiológicas consecutivas até atingirmos o primeiro pico de casos registrados na SE 30, encerrada em 27 de julho de 2020. Nesta semana, atingimos um total de 150 casos confirmados de COVID-19 para cada 100 mil habitantes do Brasil. A partir deste ponto, iniciamos uma queda consecutiva por 15 semanas epidemiológicas, atingindo o menor valor na Semana Epidemiológica 45 que encerrou em 7 de novembro de 2020. Em apenas 6 semanas o Brasil superou a marca da primeira onda e deu início à segunda onda de casos ultrapassando o limite superior inicial na Semana Epidemiológica 51 com um total de 157 casos confirmados por 100 mil habitantes.

Incidência e Mortalidade: total de casos novos divididos pela população por semana epidemiológica, multiplicado por 100.000 habitantes

Apesar de estarmos vendo uma redução nas semanas 52 e 53, posso afirmar categoricamente que não é uma redução verdadeira, pois entramos no período histórico de redução administrativa de notificações. Fui coordenador do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) por quase uma década. A sazonalidade de dengue e doenças transmitidas por vetores dura do final de novembro até meados de abril. Você pode conferir que historicamente, entre 15 de dezembro de um ano até 15 de janeiro do ano seguinte, há uma redução no número de registros em todo o território nacional. Esse fato ocorre por vários motivos, entre eles destaco:

  • Equipes são reduzidas por causa das festas de final de ano, por causa das férias e recessos tradicionais no serviços públicos e privados

  • Encerramento de contratos de digitadores de municípios, principalmente em intervalos pós-eleições municipais

  • Falta de insumos

  • Falta de suporte adequado do serviços de Tecnologia da Informação de Municípios, Estados e Governo Federal


Mortalidade por COVID-19 por 100 mil habitantes e semana epidemiológica


Em relação aos óbitos, o coeficiente de mortalidade também apresentou o aumento e redução nos mesmos períodos (linha vermelha). Diferente da incidência, a mortalidade não apresenta o mesmo padrão de elevação. Tudo isso decorrente do aumento do conhecimento no manejo clínico de casos, pelos seguintes motivos em destaque:

  • Início oportuno de oxigenoterapia

  • Pronação (virar de bruços) do paciente

  • Uso de corticoides e heparina

  • Melhora na testes (em casos graves melhorou bastante a qualidade e oportunidade)

Os pacientes estão procurando o atendimento médico mais oportunamente, lembrando que em nossa gestão e na atual o padrão continua o mesmo (casos leves devem procurar a unidade básica e casos com dispneia os hospitais. Estas recomendações estão acessíveis e públicas no site do Governo Federal (https://www.gov.br/pt-br/noticias/saude-e-vigilancia-sanitaria/2020/03/coronavirus-saiba-quando-procurar-uma-unidade-de-saude-e-fazer-o-exame) Veja que desde o início de março, a recomendação é casos leves UBS e casos graves hospitais e esta é e continua sendo a recomendação correta.


Matéria do Governo Federal orientando quando procurar a unidade de saúde, publicada em 11 de março e ainda vigente

Tratamento


Recentemente vimos avanços preliminares em drogas que estão em pesquisa. A Ivermectina recentemente foi demonstrada a redução da carga viral observada no ensaio clínico. No entanto, os desfechos primários e secundários não tiveram nenhum benefício sequer. Além disso, a redução da carga viral também é influenciada pela própria evolução esperada da doença, uma vez que a carga máxima ocorre antes do início dos sintomas, como o próprio estudo demonstra. Portanto, apesar de parecer satisfatório e acaba sendo parcialmente, estamos longe de recomendar esta droga como medida de saúde pública. Este é o ponto central da questão. Além disso, a amostragem é limitada e precisamos de mais estudos. NO entanto, é uma ótima notícia com qualidade relativa. Se é que me entende?!


Momento em que a carga viral atinge o máximo e quando os testes moleculares e sorológicos são mais adequados

Fonte: labteste


Vacinas


Hoje a vacina de Oxford foi aprovada pela Agência do Reino Unido. Esta é mais uma excelente notícia da ciência, pois todas as vacinas serão muito importantes para enfrentarmos a pandemia em 2021. Ainda há alguns fatos questionáveis que não são desprezíveis e espero que a empresa se manifeste.


Os testes mostraram que duas doses completas da Pfizer-BioNTech que já foi iniciada apresentou eficácia de 95% eficazes na prevenção da infecção, enquanto a vacina Oxford-AstraZeneca atingiu 62% de eficácia. Mas é importante destacar que embora pessoas foram infectadas, não houve casos de doença grave que necessitassem de internação.



Por uma falha de processo na Itália, onde a empresa que estava fazendo o envase errou e colocou meia dose. Os ensaios da vacina também mostraram que, quando as pessoas recebiam meia dose e depois uma dose completa, a eficácia chegava a 90%. Esse foi um fato que provocou um atraso em um dos braços do estudo. No entanto, abriu oportunidade para ampliar a parcerias internacionais, colocando a AstraZeneca e a produtora Russa da vacina Sputnik V em trabalho integrado. Esse é o maior legado, pois será preciso colaboração e solidariedade de todos os países e produtores.




Concluindo


O ano de 2021 será desafiador para a saúde pública internacional. Espero que a tensão política e incompetência na gestão sejam superadas para o bem da humanidade. Ainda acredito que seja fundamental buscar ativamente a aquisição de vacinas como fizeram vários países, incluindo nossos vizinhos Argentinos. Este é um produto inacabado e torna-se um equívoco achar que são as empresas que devem procurar os interessados. Há um competição internacional e nesse momento a lei de mercado é bastante dura. Por isso, podemos pagar um preço para a economia e sociedade que não deveria ser imposto à nossa nação. Desejo de coração que os gestores federais, estaduais e municipais encontrem o caminho do diálogo e abaixem suas armas para uma trégua em prol dos mais pobres e dos vulneráveis. E continuo afirmando, a saída da pandemia passa pela educação. Desejo que as escolas possam retornar o quanto antes e por isso advogo a necessidade de se colocar os Professores e Trabalhadores do Ensino (acima de 18 anos) nos primeiros grupos prioritários e não no último como divulgado.


Também continuo alertando para a falta de insumos, pois teremos a campanha de influenza simultaneamente, teremos que dar seguimento às campanhas das demais doenças do calendário, além dos riscos de eventos adversos que são inerentes ao processo.


Sobre a responsabilidade colocada pela Pfizer, digo e repito que já passou da hora de termos uma legislação específica para resposta às emergências. Isso é competência dos órgãos federais. Como exemplo, compartilho a legislação americana


DIVISION C-PUBLIC READINESS AND EMERGENCY PREPAREDNESS ACT

Antes de sair do Ministério da Saúde, como parte da equipe do Ministro Mandetta elaboramos um projeto de legislação mais amplo justamente prevendo aspectos como foi abordado na legislação americana e em uso em outros países desenvolvidos. Esse é um processo que independe das exigências da farmacêutica. O que falta é o governo agir, apresentar uma proposta que contemple essas prerrogativas de contramedidas de saúde, bem como regras diferenciadas para toda a cadeia de resposta. Não é justificável a afirmação de que a empresa não assumirá os riscos, pois eles são inerentes ao processo de resposta que não segue as regras de uma situação de rotina.


Precisamos de algo similar a esse serviço: https://www.phe.gov/about/pages/default.aspx


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