#01. Semana Epidemiológica: o que é? para que serve? como calcular?

Atualizado: Jan 5

Desde os primórdios desta ciência, posso afirmar que jamais, nós epidemiologistas, tivemos tanta visibilidade na sociedade. Esse fato decorre da distribuição da Pandemia de COVID-19. Em poucas ocasiões na história tivemos um mesmo evento afetando países e pessoas pobres e ricas em todos os continentes por tanto tempo e provocando desafios tão complexos para os gestores, sejam aqueles que acreditam na ciência ou até mesmos os negativistas da ciência. Esses últimos estavam nos "armários e gavetas" escondidos e com as redes sociais ganharam notoriedade e também poder. Mas esse é um assunto para outra postagem.



Segundo Alfredo Morabia, um dos maiores epidemiologista da atualidade, o termo "epidemiologia" é uma fonte frequente de confusão. A depender da aplicação, a epidemiologia pode ser considera como uma ciência, disciplina ou mesmo instrumento para conhecimento dos eventos que acometem a saúde de populações. No entanto, para a população em geral, a "epidemiologia" evoca uma disciplina médica que lida com grandes surtos de doenças infecciosas. Esse era, de fato, seu significado nos primeiros tratados que incluíam "epidemiologia" em seus títulos. No século 16, o físico espanhol Angerelio publicou um estudo sobre a peste intitulado "Epidemiología" e em 1802, outro médico espanhol, Villalba, escreveu uma compilação de epidemias e surtos ao longo de 13 séculos intitulado "Epidemiología Española"[1].


O termo epidemiologia também era bastante preciso quando a disciplina deu seus primeiros passos. Ela refletiu o contexto histórico particular da Inglaterra do século 19, quando epidemias de doenças infecciosas, e em particular de cólera, eram os principais flagelos cujas causas precisavam ser identificadas. A London Epidemiologic Society, criada em 1850, reuniu cientistas, profissionais de saúde pública e médicos para unir seus esforços na luta contra as "epidemias"[1].


Mas, afinal, o que é Epidemiologia?


É o estudo da ocorrência e distribuição de estados ou eventos relacionados à saúde em populações específicas, incluindo o estudo dos determinantes que influenciam tais estados, e a aplicação desse conhecimento para controlar os problemas de saúde [2].

  • Estudo: inclui vigilância, observação, teste de hipóteses, pesquisa analítica e experimentos.

  • Distribuição: refere-se à análise por tempo, lugar e classes ou subgrupos de pessoas afetadas em uma população ou sociedade.

  • Determinantes: são todos os fatores físicos, biológicos, sociais, culturais, econômicos e comportamentais que influenciam a saúde.

  • Estados e eventos relacionados à saúde: incluem doenças, causas de morte, comportamentos, reações a programas preventivos e provisão e uso de serviços de saúde.

  • Populações especificadas: são aquelas com características comuns identificáveis.

  • Aplicação: controlar, promover, proteger e restaurar a saúde.


Podemos afirmar que o objetivo "nuclear" da epidemiologia como disciplina científica seja identificar as as causas de eventos relacionados à saúde nas populações. Neste caso, podemos considerar eventos como qualquer situação que afete a saúde das pessoas. No entanto, nos últimos 70 anos, esse objeto foi ampliado para além da preocupação sobre a ocorrência de epidemias de doenças transmissíveis e passou também a englobar todos os processos e fenômenos relacionados à saúde em populações. Por exemplo, na definição de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) o Regulamento Sanitário Internacional já expande para desastres como enchentes. Portanto, desde 2005, qualquer situação que afete a saúde de populações ou grupos humanos, mesmo que não tenha ocorrido, passou a ser objeto de atuação do epidemiologista.


ESPII: ocorrência de evento incomum ou inesperado (manifestação de doença ou ocorrência com potencial para causar doença em humanos) que constitua risco para a saúde pública para outros países, devido à propagação internacional de doença e exija resposta internacional coordenada (RSI 2005)[3]

Deste modo, a epidemiologia é muito mais do que um ramo da medicina no tratamento de epidemias e os usos de dados na vigilância incluem a descrição e comparação de padrões de doenças usando variáveis ​​de pessoa, local e tempo. Em particular, exemplos do uso da variável de tempo podem ser encontrados nos primeiros estudos epidemiológicos conhecidos. Por exemplo, em relatório sobre a epidemia de influenza de 1847 em Londres, William Farr apresentou dados coletados por semana e calculou facilmente o excesso de mortalidade por influenza em diferentes períodos do ano [2].


A discussão entre estatísticos de várias disciplinas sobre o uso de unidades de tempo específicas parece ter sido uma constante no início do século XX. Em maio de 1925, um documento foi apresentado à British Royal Statistical Society, que argumenta pela primeira vez que um período de tempo menor que o mês civil (a semana) é necessário como um "princípio de divisão" do ano para fins de análise de estatísticas vitais [6].


O que é a semana epidemiológica?


Semana epidemiológica é um consenso internacional sobre o uso de um período de tempo padrão para agrupar os casos e óbitos ou outros eventos epidemiológicos. Este período é geralmente a semana e é conhecido como a semana epidemiológica.


A cada ano, os epidemiologistas dividem os 365 dias do ano em 52 ou 53 semanas epidemiológicas, criando o calendário epidemiológico.


Para que serve?


A semana epidemiológica é uma forma de padronizar a variável de tempo para fins de vigilância epidemiológica.


Vantagens:

  • Permitir a comparação dos eventos epidemiológicos ocorridos num determinado ano ou período de um ano, com os de anos anteriores;

  • Facilita a comparação entre países;

  • Facilita a visualização da distribuição dos dados no tempo;

  • Ajusta-se aos anos bissextos;

  • Facilita a compreensão entre exposição e desfecho: para doenças transmissíveis agudas que provocam surtos, boa parte delas apresentam período de incubação de aproximadamente 7 a 14 dias. Considerando isso, fica mais fácil visualizar o momento entre um evento (festas de final de ano sem respeito às medidas de distanciamento físico) com o desfecho (aumento de casos, internações e óbitos).

As semanas epidemiológicas começam no domingo e terminam no sábado; A primeira semana epidemiológica do ano termina, por definição, no primeiro sábado de janeiro, desde que caia pelo menos quatro dias no mês, mesmo que isso signifique que essa primeira semana comece em dezembro.


Como calcular no Excel?


Vários programas estatísticos de computador como o Epiinfo, R, Stata possuem scripts próprios para calcular automaticamente a Semana Epidemiológica. No entanto, no Excel não há uma fórmula única que faça os ajustes entre os anos. Durante o ano de 2020, era possível usar a fórmula <NÚMSEMANA> para o período até a Semana Epidemiológica 52. No entanto, a partir a SE53 começamos a ter problemas. Para isso, apresento abaixo uma alternativa simples para a maior parte das pessoas calcularem a semana epidemiológica.


Fórmula para o Excel:

=TRUNCAR(((célula onde está a data mais recente-primeiro domingo o ano epidemiológico entre aspas)/7)+1)

Exemplo:


Considerações finais:


Como na antiga propaganda de Neston, essa é apenas uma forma simples de resolver um problema comum. Pode ser que você conheça algo mais simples ainda. Por isso, solicito que comente e me envie suas sugestões para correções e aprimoramento.



E aí, como pretende fazer seu "Neston"?


http://portalsinan.saude.gov.br/calendario-epidemiologico


Referências

  1. MORABIA, Alfredo (Ed.). A history of epidemiologic methods and concepts. Springer Science & Business Media, 2005.

  2. PORTA, Miquel (Ed.). A dictionary of epidemiology. Oxford university press, 2014.

  3. WORLD HEALTH ORGANIZATION. International health regulations (2005). World Health Organization, 2008.

  4. Adapted from Pan American Health Organization (PAHO) Epidemiological Bulletin, Volume 28, No. 4, 2009.

  5. Langmuir AD. William Farr: Founder of Modern Concepts of Surveillance. International Journal of Epidemiology 1976; 5(1):13-18.

  6. Watkins H. Time counts: the story of the calendar. New York, Philosophical Library. 1954

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